quinta-feira, 3 de agosto de 2017

16:43

O Sagrado em mim


O contato intimo
O toque...
A cor do sangue que emana de mim
Eis o renascer do meu ciclo 
Eis a libertação da maldição do sangrar.

O conhecer-se
O compreender...
A sensação de liberdade flui entre minhas pernas
Eis o ressurgir de minha intimidade
Eis a revolução do Sagrado em mim

A mulher liberta
A Deusa...
O florescer da minha feminilidade 
Eis o começo de um amor intenso
Eis o saber amar-se profunda e intimamente

A magia 
O luar...
As fases do meu ciclo
Eis um poder em mim
Eis a força imanente que nos liga e irriga vida em nós...

A menstruação.


[sobre uma experiência de amor e conhecimento intimo intenso do uso do copo coletor].

quinta-feira, 6 de julho de 2017

00:44

Assim como Belchior

Assim como Belchior adquiri alguns medos
Não tenho medo da morte
Mas do bicho voador
Tenho medo da solidão
E do sertão do meu coração
Não tenho medo de perder
Mas de ser vencida

Me orgulho do meu medo de ET
E finjo bem não temer a idade que me alcança
Não tenho medo do escuro
Mas do bicho papão

Perdi medos de criança
Ganhei medos de adulto
Medo do boleto que atrasa
Da falta de grana
Medo de crescer

Medo, medo, medo... MEDO.

"Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?"

segunda-feira, 12 de junho de 2017

18:32

Colo

Quando o mundo cai
Ele é meu alento.

Quando estou em teus braços
Tudo parece pequeno,
Fácil de resolver,
Tudo passa devagar.

Teu colo é casa
Onde habito
Onde existo
Onde me deixo ficar.

Quando tudo parece fugaz 
Ele é meu infinito.

Teu colo é onde somos um.


terça-feira, 2 de maio de 2017

17:41

GRITOS

Licença
Agora eu vou falar
Esse espaço é meu por direito
Ninguém me ofereceu por educação.
Me dê licença, eu vou gritar
Meu silêncio consentido, 
Você nunca mais terá.
Sou mulher,
Tenho certeza, todos vão me julgar
O tamanho da minha saia - dizem
Faz muita gente achar
Que pode me estuprar.
Marginalizam meu corpo, o comercializam
Fazem pouco da minha fala,
Julgam até se sou pra casar.
Dói, preciso gritar. 
Sou jovem também
Como muitos, tenho medos, sonhos
E esperança a florescer.
Mas eles - os que estão no poder
Nos tiram direitos,
Selam destinos,
Matam futuros,
Nos aprisionam em gaiolas
Presídios cheios de sonhos mortos.
Querem nos diminuir,
nos punir, nos calar.
Urbanizam nossa regionalidade
Pintam de cinza nossa arte
Nos fazem esquecer de onde viemos
Tiram nossos espaços.
E muitos de nós, para SOBRE-VIVER
trilham o caminho das drogas.
Falta lazer, falta cultura e o emprego, cadê?
A mídia manipula,
Nos seleciona feito leite:
O tipo A e o tipo B
Tem vez, que nem para C a gente serve.
Dizem que  temos que andar na linha, saber se portar.
Se é Bi, Gay, Lésbica ou Trans, 
é melhor esconder, falam:
"Da sua vida intima, ninguém tem que saber!"
Nos aprisionam dentro de nós
E vão matando, dia após dia
Aniquilando nossas vontades e desejos, um por vez
Perdemos a vontade de viver:
Depressão, ansiedade, os nossos fantasmas pessoais, 
As cruzes que carregamos, pesam...
Mas hoje, aqui, reunidas e reunidos
Escolhemos gritar
Sonhar mais uma vez
Não nos calar jamais
Sem Temer,
Ousamos lutar,
Por NÓS e por AMOR! 


[Escrito para o Sarau do 32º ARPJ em Marília-SP. 21/04/2017].


quarta-feira, 8 de março de 2017

11:39

Bruta Flor

Aqui jaz um corpo,
não um corpo comum,
um corpo de mulher
machucado
subjugado
padronizado
comercializado
violentado
violado
silenciado.


Aqui está a mulher
que a tudo suportou,
fez da dor revolução
liberta
empoderada
militante
corajosa
sonhadora
ousada
dona de si.

Todas mulheres, algumas como mais ou menos privilégios,
mas todas mulheres.
Todas vivendo sob domínio patriarcal,
sobrevivendo, 
ou tentando sobreviver ao machismo,
algumas sobrevivem, outras não.
Todas na luta por melhores condições de vida, 
de sobrevida.
No país que te matam por ser mulher,
no país que bota a vitima no banco de réu
e ao estuprador rende homenagens. 
Mulheres com suas belezas, 
várias, 
múltiplas, 
diversas.
Cada uma de um jeito,
com sua intensidade 
e resistência necessária.
Apesar das dores, há suas delícias.
Ser mulher é a difícil tarefa
de aprender e desconstruir 
todo dia,
aquilo que fomos educadas a ser
e aquilo que desejamos e temos o direito de ser,
Mulher.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

18:52

Um adeus que eu não soube dar.

Como dói te perder.
Nunca pensei passar por isso.
Nunca me imaginei me despedindo de você.

Minha memória viva, me traz a recordação do nosso último até mais.

Lembro-me de te dizer obrigada, de te abraçar forte e te dizer o quanto era importante você estar ali comigo. Eu sei que não foi a última vez que nos vimos, houveram tropeços e abraços apertados no meio da rua, tiveram sorrisos largos trocados de um lado a outro das calçadas. 
Fizemos muito isso.

A saudade me pega nos braços.

Agora estou nas nuvens, me sinto perto de você, de uma forma muito abstrata.
O horizonte se define entre nuvens que separam o céu da terra, de maneira tênue.
Parece um chão de nuvens.
Eu gosto assim.

Estou retornando para casa e dessa vez não vai ter você na calçada oposta, atravessando a rua só pra me dizer oi. Essa realidade crua machuca. Eu olho pela janela do avião e só vem você na minha cabeça. Acabo de perceber que como minha última comunhão, você está vivo dentro de mim, nos meus olhos marejados, na minha memória, nos meus braços, que seguram um pouco dos teus abraços.

Me desculpe não estar ai para te dizer adeus, na verdade eu não quis e não quero dizer adeus, mas queria ter ido dizer: "até logo Dog, vai com Deus". Queria cantar pra ti, eu cantei algumas vezes sozinha, mas eu queria te ver pela última vez, louca pra você voltar pra gente. Eu estava longe, mas estou voltando e lá vai doer não poder te ver. Mano, já tô cheia de saudade, cuida da gente, guarda um lugar pra nós junto de ti.



[Carta de até logo ao meu eterno mano Gabriel Fernando Ramos]